







Lima - Palácio do Governo
Como a grana anda curta e não tenho cartão corporativo do governo, o jeito foi programar uma viagem pelo continente mesmo. Queria ir a um lugar ainda desconhecido. Uma pesquisa na internet rapidamente me ajudou a definir o destino: Lima, Peru. Explico: todas as capitais dos outros países - Venezuela, Colômbia, Bolívia, Equador e Guianas - estão situadas entre 2650 e 3700m de altitude. Como assim, vai dizer que Lima também não está no alto? Por incrível que pareça, está no nível do mar. Cuzco, sim, está a 3400m de altitude. O Peru está dividido em três regiões distintas: a costeira, a selva amazônica e a serra andina. Por sorte Lima fica na costa. Assim, me tornei uma espécie rara de turista: fui ao Peru e não conheci Cuzco nem Machu Picchu. E devo confessar aqui ao pé de ouvido: também não provei o PISCO, a aguardente que é orgulho nacional. E chá de coca, bem, não foi preciso.
Tenho razões suficientes para não suportar altas altitudes. Fiquei meio traumatizada depois de uma viagem à Cidade do México, há uns dez anos. E olha o México D.F. só está a 2265m acima do nível do mar. Mas nos cinco primeiros dias não conseguia andar nem respirar, parecia que ia desmaiar a todo momento. Por isso lamento, mas os demais hermanitos do continente só vão ter o prazer de receber minha visita talvez na próxima encarnação.
Acreditem: foi muito divertido interagir em portunhol e às vezes ter que repetir duas vezes o texto para ser entendida. Da mesma forma, foram prazerosas as descobertas, o contato humano e a intimidade com uma cultura tão diversa, mas tão próxima da nossa latinidade.

com as diferenças. Viajar é muito bom. Quando temos que usar uma língua diferente da materna para nos comunicar, então, é excitante. Por isso quando vai chegando a metade do mês de janeiro, começo a imaginar onde o bolso pode me levar para o descanso da guerreira. O simples fato de pensar num período, por menor que seja, fora de casa e do trabalho, sem compromisso com nada além do lazer e do divertimento, já faz acender uma luzinha verde. Quem não gosta de férias? Já houve um tempo no Brasil em que os trabalhadores podiam “vender” metade de suas férias, a lei permitia. Com isso, folgavam 15 dias e trabalhavam os outros 15, recebendo o equivalente em dinheiro. Demoraram para aprender a importância do lazer na recuperação do desgaste fí
sico e psíquico provocado por 40 horas semanais de trabalho. Não me recordo se cheguei alguma vez a fazer essa bobagem, movida, como todos, pela necessidade de dinheiro extra. Mas agora não trocaria dias de descanso nem pelo dobro do salário. Vai daí que estou vivendo o frisson do planejamento da minha viagem de férias. Pesquisa pela internet para elaborar roteiro turístico, reserva de voo, procura de hotel, a ansiedade renovada. Uma vez mais, vou por lugares nunca dantes navegados. O destino não conto agora, só pra atiçar a curiosidade da minha meia dúzia de leitores. Quem tem um palpite aí, levanta a mão.
Por causa desta foto aí em cima quase levei porrada, acredite se quiser.Era um domingo de sol belíssimo, havia dezenas de ônibus de turistas estacionados nas redondezas da Casa Rosada e da Plaza de Mayo. Cada movimento era um flash. Impossível tirar uma foto sem a participação de penetras no ângulo escolhido. Foi aí que avistei a cena perfeita: no meio da praça, numa espécie de tanque, indiferentes ao sol e ao barulho das pessoas circulando, três homens dormiam tranquilamente. De repente ouço alguém me interpelando: Señora, usted no tiene que sacar fotos a esto, fotografe la belleza de Buenos Aires e no la miséria. Isso aos berros, tanto que juntou gente para saber o que estava acontecendo. Eu, muito atrevida, respondi no mesmo tom: Eu fotografo o que eu quiser e você não tem nada com isso. Eu quero registrar é a miséria mesmo. O fanático argentino continuou praguejando, enquanto eu também fotografava as faixas afixadas por toda parte na praça, testemunhas de que os adversários políticos do casal Kirchner não dão trégua. Felizmente a multidão estava ali a me proteger. Se não, talvez o brutamontes tivesse arriscado a me tomar a câmara na marra.


