Quarta-feira, Dezembro 2

No templo de consumo


Hoje fiz algo inusitado: fui ao shopping. Não sei nem dizer qual foi última vez que fui parar naquele templo de consumo, deve ter sido atrás de uma lista de casamento, que a maioria das noivas deixam na Dadalto. Decididamente não sou assídua em shoppings. Por necessidade ou opção, estou me tornando cada vez mais minimalista, quero aprender a viver com o mínimo necessário(nada de votos de pobreza, outra hora explico isto).

Quando eu falo, as pessoas não acreditam: não conheço o shopping Praia da Costa. Ao Norte-Sul fui uma vez carregada por uma amiga. Mas hoje precisava realmente ir ao shopping. Fui logo na abertura, assim evitei ficar me desviando das pessoas e garanti um silêncio extra. Tranquila, entrei nas três principais lojas de eletrodomésticos fazendo pesquisa de preço, que meu dinheiro não cresce como grama. No trajeto entre uma e outra, vi lojas e mais lojas desconhecidas, não tinha a menor idéia de que existiam. Entrei numa delas pra olhar umas sandálias, que acabei comprando, e, conversando com a vendedora, disse que conhecia a loja de Beagá e que nunca tinha visto a loja ali naquele local. Fiquei consolada quando ela me garantiu que eu não era a única. Daí eu arrisquei e perguntei se era nova. Pra minha surpresa ela respondeu que sim, que tinha mais ou menos quatro anos e meio de existência. Pensei que tava gozando da minha cara, mas não. Que mico o meu! Quando estava voltando à primeira loja da pesquisa (por que é que sempre voltamos pra comprar na primeira, hein? ), vi uma perfumaria nova – a Mahogany - e entrei pra sondar. Os frascos são lindos, os perfumes deliciosos e tem um óleo corporal que adoro. Conversa vai, conversa vem, a mesma pergunta: quando foi inaugurada? Há mais ou menos um ano e meio. Tive que rir mais uma vez. Se convenceram de que se o shopping Vitória estiver querendo aumentar as vendas não vai ser com o meu rico dinheirinho, né?

Demorei mais tempo do que havia planejado, mas voltei pra casa bem alegrinha com meu presente. Tchan-tchan-tchan-tchannnnn... um circulador de ar básico. E quem foi que disse que quero derreter nesta primavera com pinta de alto verão?

Sábado, Novembro 28

Eu vô falá pa tu se ligá véi...



Socorro! Não é que alguém resolveu fazer uma festa no prédio ao lado movida a DJ e tudo! É quase meia-noite e o som tá bombando. Chamei à portaria do meu prédio só pra tomar o pulso da situação e fiquei sabendo que outras pessoas tinham feito o mesmo antes de mim. Tem gente na janela reclamando. Mas ninguém toma nenhuma providência. Precisam ver o repertório: só funk e pagode, daqueles brabos, mais brega impossível. O batidão tá enchendo o saco pra lá de duas horas, gente. Imagino que a festa deve estar cheia de mulheres-fruta e meninos de boné virado pra trás com calças folgadas. Vai ver não é nada disso, só preconceito meu. Bem, liguei pro Disk Silêncio, que chegou até rápido. Os fiscais subiram aqui no apartamento pra fazer a medição de decibéis durante cinco minutos e disseram que iam lá pedir para os jovens diminuírem o volume. Ufa! Enquanto escrevo, o som diminuiu um pouquinho, mas pelo jeito estão só esperando os fiscais irem embora. Ai, ai, ai. Vou tomar um rivotril básico e relaxar. Quem sabe acabo pegando no sono assim mesmo?

Quinta-feira, Novembro 26

Mal-me quer, bem-me-quer...


Li em algum lugar, gostei, achei que tem tudo a ver, daí reproduzo aí embaixo só pra fazer vocês pensarem um pouquinho a respeito.

"No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é, e outras que vão te odiar pelo mesmo motivo. Acostume-se".

Assim caminha a humanidade, né não?
Agora, quem souber quem é o autor de verdade do pensamento, please me diga que eu acrescento aqui.

Terça-feira, Novembro 17

Liga, vai...

Se a liga me ligasse, eu também ligava a liga; mas a liga não me liga, eu também não ligo a liga.
Sacou? Beijo me liga!

Domingo, Novembro 15

RODA MUNDO, RODA GIGANTE...





Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...



De vez em quando esta canção me vem à mente, talvez porque expresse meu sentimento de frustração por não conseguir tomar a vida nas mãos e colocá-la nos trilhos de novo, na direção que eu quero, no tempo que quero... Mas ela me faz também cair na real, saber que meu poder pra isso é relativo e que de nada adianta pressa nem ansiedade. Piso no freio e reflito, o mundo às vezes é cruel, mas não há baixo astral que vá tirar minha gana de ir em frente, apesar de. E como isso aqui já tá virando dramalhão de Manoel Carlos, viro o disco e penso em momentos felizes, penso na alegria de ter minha filha de volta, depois de longos anos de ausência. Por enquanto é apenas um projeto, uma expectativa. Mas que faz meu coração bater mais forte. E me dá ânimo pra continuar indo contra a corrente nesta roda viva.

(Chico é sempre Chico, super!)

Sexta-feira, Novembro 6

Histórias de aniversário



Primeiro a triste. É inevitável. Vai se aproximando o dia e também aumentando a ansiedade. Fazer aniversário tem um lado bom, de poder dizer “venci mais um”, mas também tem um lado nostálgico, de acordar com vontade de amarrar o tempo, de pedir pra ele não andar tão rápido. Aniversário pra mim é que nem réveillon, dia de olhar pra trás e avaliar o que deixei de fazer e também o que fiz e não devia ter feito. No plano astrológico, é o fechamento de um ciclo e o início de outro e isso provoca certa turbulência. Passou! Com tantas mensagens carinhosas, até que não foi muito traumático desta vez.

Depois a engraçada. Fui buscar a torta na doceria. Já vieram buscar, informou a moça. Como assim, já vieram buscar? Eu vim buscar. Ah, uma torta de chocolate para quinze pessoas? Não, de abacaxi com coco para dez pessoas. Por coincidência as duas encomendas, para o mesmo dia e horário, tinham sido feitas por duas Reginas. O marido de uma chegou primeiro e carregou a torta da outra. Quero minha torta de abacaxi de volta, argumentava a outra. A solução foi pegar o telefone, se desculpar pela trapalhada e pedir gentilmente que o marido viesse destrocar a torta antes que a mulher dele chegasse do salão e o acusasse de incompetência, coitado. Quinze minutos e algumas risadas depois, cheguei com a torta autêntica em casa. Essas coisas só acontecem comigo, pode acreditar.

Quarta-feira, Outubro 28

Eu tuíto, você tuíta, nós tuitamos

Quando você abre o computador e vai direto pro twitter antes de checar os emails, aí, então, o vício ta começando a ficar sério. Essa eu ouvi, digo, li outro dia no próprio, o programa sensação do momento, onde participam gente de toda espécie - celebridades, políticos, jornalistas, apresentadores de tv, humoristas, artistas e pessoas comuns. Uma verdadeira febre, que tende a aumentar com as campanhas políticas. Também estou por lá, acompanhando o tom da política e da pouca vergonha de suas personagens. Mas me cuidando pra não me deixar contaminar por aquele vírus. Fico de fora observando a fogueira de vaidades, que ali se manifesta na declaração de quantos seguidores alguém conquistou ou na autopromoção com base nas retuitadas. Falando sério: estou mais preocupada com qualidade do que com quantidade, além de não ter tempo pra desperdiçar com bobagens em excesso. Por outro lado, acho um bom exercício dizer coisas inteligentes rapidamente em 140 caracteres. Lembrando sempre que em boca fechada não entra mosca. É isso.

Domingo, Outubro 18

ZAP, ZAP...





Outro dia, numa dessas leituras exploratórias em busca de algum texto que pudesse estimular o interesse mais imediato de meus alunos, encontrei um conto de Moacyr Scliar muito bem escrito e, de quebra, pungente, que acabou provocando algumas reflexões sobre minha relação com a televisão. O conto se chama Zap e relata o hábito de um pré-adolescente de ficar mudando constantemente de canal. A cada propaganda que não interessa, a cada programa maçante, novela enfadonha ou não, desenho repetido pela centésima vez no ano, ele vai mudando de canal, tentando encontrar algo que corresponda à sua expectativa no momento. O menino não é o único amigo íntimo do controle remoto da TV, como se sabe. Tanto que se criou o verbo zapear, de uso comum nas conversas sobre programas televisivos. Confesso que me vi na figura do menino. Vejo pouco televisão e, quando vejo, estou sempre zapeando. Não tenho muita paciência para reality show, games, assistencialismos que rendem muitas lágrimas e alta audiência, apresentadores que não falam mais que os entrevistados e apresentadoras louras (já perceberam que são todas louras?). Mas há coisas interessantes, basta saber procurar, me dizem amigos e parentes. É bem provável que sim, admito que eu é que não sou muito paciente. Além disso minhas opções resumem-se aos canais abertos, não tenho assinatura dos pagos porque o número de vezes que me sentaria diante da tela não compensaria o preço cobrado. Não pensem, porém, que minha antipatia por esse veículo chega às raias da intolerância. Não, até que gosto de sintonizar os jornais na hora do almoço. São um santo remédio: depois de comer, é só esticar o corpo no sofá da sala e fechar os olhos. Não há soneca melhor e mais revigorante. Com sorte, acordo em tempo de ouvir o convite dos apresentadores para o dia seguinte.

Quinta-feira, Outubro 15

Do you know Manoel de Barros?

Um pouco da poesia reinventada de Manoel de Barros nesta noite quente de primavera.

Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

Domingo, Outubro 4

Tem que morrer pra germinar

E porque hoje é domingo, aí vai uma crônica de Paulo Mendes Campos, uma de suas melhores, aliás. Vale a pena gastar alguns segundos na leitura.

O Amor Acaba

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.