quarta-feira, janeiro 19

CHULEPA

A arte imita a vida? Muitos apostam que é exatamente o contrário, a vida é que imita a arte, daí a polêmica provocada por Passione, novela de Silvio de Abreu que terminou na semana passada. As opiniões divergentes têm a ver com as relações familiares e os relacionamentos amorosos que rolaram na telinha. Alguns telespectadores acham que o autor errou na dose, que a novela pode estimular a dissolução dos costumes. Já outros alegam que tudo o que aparece na novela existe na vida real. Não me interessa aqui entrar no mérito dessa discussão. Nem analisar a trama, as personagens e muito menos a atuação dos atores. Quero comentar apenas a questão linguística da história. No início houve reclamação de muitos telespectadores que não entendiam lhufas do portuliano que o núcleo italiano usava o para se comunicar. Silvio de Abreu recheava as falas dos camponeses toscanos com inúmeros palavrões. Uma amiga italiana estranhou a vulgaridade dessas falas, com tantas “palavras pesadas”, ao que respondi que não tinha nenhuma importância, já que era reduzido o número de brasileiros que estavam entendendo. Mas o autor se esmerou mesmo foi na escolha dos nomes dados às personagens. Dos que vieram da Toscana, destaco Totò, diminutivo de Antônio, mas que no Brasil é nome de cachorro. Causou certa estranheza. Na mesma linha, havia Mimi, apelido dado a Carmelo, que na nossa cultura é nome de bichano. Depois tinha a matriarca Gemma, que implicava continuamente com a schifosa Chiara, faltando pouco pra essa antipatia virar uma bela omelete (desculpem, não resisti!). Os filhos de Totò, todos com nomes iniciados pela letra A, também foram alvo das brincadeiras de Silvio de Abreu. Vamos conferir: Adamo (Adão, em português), primeiro filho (homem), significa amante ardente (com aquela cara?); Agnelo não é nome de gente na Itália; designa o animal cordeiro. Tomado como metáfora, contradiz o comportamento rebelde do rapaz; Alfredo significa conselheiro, pessoa sempre disposta a ajudar amigos e resolver problemas íntimos, o que se encaixa perfeitamente no temperamento do caçula dos Mattoli ; por fim, Agostina, que deve significar nascida no mês de agosto, para nós, mês do desgosto (desgosto por ter que dividir o marido com outra mulher?). Ah, sim, o bígamo Berillo (a designação existe em português: Berilo é o nome de um mineral, amálgama de silicato de berílio e alumínio, de grande dureza e resistência... Tem a ver?).

Mas não são apenas os nomes dos italianos que revelam trocadilhos. No núcleo pobre a brincadeira está em Felícia (=feliz, boa, generosa) e sua filha Fátima (=pessoa que sabe ouvir a intuição e não se prende a regras ultrapassadas). Entre os emergentes não poderia faltar uma família Silva, como que reforçando a tese de que um pobre pode “chegar lá”, seja reciclando lixo – Olavo (=sobrevivente) da Silva – ou com um golpe de sorte – Fortunato (= sortudo) da Silva (ou, quem sabe, como torneiro mecânico?). Outras análises poderão, talvez, descobrir novas relações significado/personalidade, mas um nome em especial me despertou curiosidade -- o do namorado da patricinha Lorena Gouveia, a qual perdeu Agnelo para a mãe. Como prêmio de consolação (eu disse prêmio?), recebeu um rapaz sem nome nem sobrenome, conhecido apenas como Chulepa. Essa charada eu não matei. Alguém aí pode me explicar o que isso quer dizer?

9 comentários:

  1. eu sei que existe 'chulipa'... mas Chulepa é novidade. hahaha

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  2. Pois é, marília, esta é a minha dúvida também. só perguntando ao silvio, né?

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  3. Ho visto poche puntate ma ritengo che i tuoi commenti siano giusti e appropriati. A me Berillo ha fatto pensare al 'birillo', come quelli del gioco del bowling, quei cilindretti che vengono colpiti e cadono, ma poi li si rimette in piedi e cadono di nuovo...
    Alcune canzoni, tipo 'Malafemmena'e 'Torna a Surriento', ascoltate in sottofondo,sono tipicamente napoletane, troppo napoletane per un ambiente toscano, secondo me.Il nome stesso Totò (diminutivo anche per Salvatore)è tipicamente napoletano. Basti pensare al grande attore comico Totò (alias principe Antonio de Curtis).

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  4. Amei sua análise. No que se refere aos "Silva" faz parte dos que nunca comeram melado, independentemente do sobrenone... kkk Mas o mais surpreendente foi sua paciência. Desisti de ver. Td por conta do Totó... chatão q s'p!!!

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  5. E outra pergunta que não quer calar: por que os sotaques do Tony Ramos são iguais, seja a personagem um grego, um italiano, um indiano, um americano..?

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  6. Marília, não seja tão rigorosa com o Tony, ele não tem culpa da orientação da Globo. Ele fala sempre como Tony, misturando uns jargões (e palavrões) na língua estrangeira.Vamos convir que com mais que isso não haveria público para ver as novelas. Exotismo tem limites!

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  7. Eu sou uma daquelas que torce para que a novela não seja transmitida na Itália. Assisti a uns poucos capítulos - o que não foi suficiente para a memorização das personagens - e achei uma chatice, sabe? Mas sua análise foi tão minuciosa que eu não resisti. Pesquisei com as noveleiras de plantão aqui de casa e entendi tudo! Hahaha. Uma confissão: adorei a novela nova. Essa talvez eu acompanhe, na medida do possível. Aí a gente pode analisar juntas. O que acha?! Hehehe. Adorei a sua volta com todo o humor de sempre!

    Beijos.

    P.s.: O Tony Ramos podia se aposentar.

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  8. Eu conheço um CHULEPA, meu irmão!

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